Introdução
– Relevância do autor e da Obra
Marco Davi
de Oliveira inspira respeito por sua pesquisa, buscando fontes oficiais e um
contexto histórico inquestionável. Sua obra incomoda por explorar assuntos
polêmicos e impopulares, desfazendo mitos e mudando conceitos; destacando a
representatividade e importância dos afrodescendentes e em alguns casos, das
mulheres nas igrejas pentecostais. Denuncia a omissão da igreja evangélica nas
áreas social e política no passado recente do Brasil e o atual interesse
político sem o devido altruísmo, aliado à apatia concernente à injustiça
social, corrupção, violência e problemas internos na própria igreja. Cobra
mudança de atitude da igreja evangélica brasileira pela valorização do negro em
esferas mais elevadas; por uma vertente nova nos ensinamentos e mensagens, que
tragam esclarecimentos sobre racismo e preconceito; por uma nova postura com a
política de ações afirmativas; por um retorno aos excluídos e como
consequência, aos negros.
Resumo
I
- A Origem do Pentecostalismo no Brasil
A festa de
Pentecostes observada pelos judeus após a colheita marcou a data da descida do
Espírito Santo à Terra, quando as pessoas falaram o idioma de populações de
outras nações. Os pentecostais abalizam suas experiências espirituais neste
episódio; afirmam que o fenômeno conhecido como glossolalia é resultado do “batismo
com o Espírito Santo”. Portanto, o movimento religioso resultante desse tipo de
experiência é chamado de pentecostalismo.
A história
do pentecostalismo brasileiro revela a saga dos que fizeram a diferença no
protestantismo do país e os aspectos que estimularam o crescimento da população
evangélica em número e em influência. Suas peculiaridades, com estilo próprio,
recheado da cultura nacional facilitou seu ingresso nas camadas mais pobres e
sua chegada aos locais mais distantes do Brasil.
É notável a
história da Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil e a Igreja do
Evangelho Quadrangular; resultantes das experiências religiosas vindas de fora
do país por missionários chegados no início do século XX com mensagens diferentes
das anunciadas entre os evangélicos encontrados aqui.
Não se pode
ignorar o pentecostalismo original aqui do Brasil. Manoel de Melo, fundador da
igreja O Brasil para Cristo, homem simples, em tempos difíceis, tornou-se um
dos grandes comunicadores do Brasil. Davi Martins Miranda, líder da igreja Deus
é Amor, nos passos de Manoel de Melo, permanece ainda hoje como ícone do
pentecostalismo no Brasil.
O
pentecostalismo apesar de suas divisões foi um movimento de avivamento
experimentado pela igreja brasileira como um todo. Apesar da falta de consenso
entre todos os pressupostos e doutrinas é reconhecida a importância do
movimento pentecostal como fenômeno religioso de esferas sociológicas e
filosóficas.
A
influência norte americana
O
pentecostalismo surgiu nos EUA, mas o movimento já pode ser identificado no
ministério de John Wesley, que no século XIX frisava a santificação como
primeiro passo para uma vida cristã mais autêntica. Wesley foi influenciado
pelas experiências religiosas dos católicos italianos, espanhóis, franceses e
pelos ensinos da Reforma Protestante do século XVII.
No início
do século XX o metodismo muda seu viés de ética social para uma ética
filantrópica e individualista com base para alcançar uma vida espiritual mais
acurada. O conceito de santificação nascido do metodismo foi o aspecto mais
importante na origem do movimento pentecostal. Experiência mais tarde chamada
“batismo no Espírito Santo”. Influenciado por esse ambiente avivalista, o
pentecostalismo chegou aos EUA para se perpetuar e alastrar-se por todo o
mundo.
Historiadores
afirmam que em janeiro de 1901 na escola bíblica de Topeka, Kansas – fundada
por Charles Fox Parhan em outubro de 1900 – em meio aos estudos sobre a obra do
Espírito Santo, a estudante Agnes Osman, solicitou que seus colegas orassem
para que ela recebesse o Espírito Santo e falasse em línguas; naquele momento a
aluna teria falado em línguas estranhas sendo sucedida por outros alunos
vivenciando a mesma experiência.
Foi
necessário abrir outra escola em Houston, Texas em 1905, onde um jovem negro,
filho de escravos da Louisiana, William J. Seymour estudou e mesmo sendo alvo
do desprezo de Parhan, aprendeu sobre as doutrinas do Espírito Santo e o
Batismo no Espírito Santo como uma segunda bênção. Seymour passou a transmitir
esses ensinamentos na famosa Rua Azuza, 312 em Los Angeles.
Seymour
experimentou provavelmente, muito preconceito e intolerância em sua jornada de
vida cristã a partir dessa experiência. Um negro em contexto eclesiástico segregacionista
apresentava ensinamentos estranhos tendo sua própria experiência como base e
dava a possibilidade de qualquer pessoa, até mesmo das classes menos
favorecidas, a liberdade de ação e culto livre da institucionalização das
igrejas históricas. Los Angeles vivenciou um grande avivamento espiritual a
partir dessas pessoas pobres, simples e negras.
O grupo
liderado por Seymour chamava-se Missão apostólica da Fé, mudado para Assembleia
de Deus em 1914. Havia a preocupação de impedir que o movimento se tornasse uma
denominação convencional com toda a estrutura e burocracia próprias; resultando
daí, várias trocas de nomes, como Movimento da Fé Apostólica e Movimento das
Últimas Chuvas. Os primórdios do pentecostalismo ajudam a perceber as muitas
semelhanças entre o nascimento da igreja pentecostal norte-americana e seu
início no Brasil. O início do pentecostalismo tanto nos EUA como no Brasil foi
entre pessoas simples com experiências marcantes em suas vidas; que
representavam nessas experiências, um anseio de maior liberdade religiosa. Nos
dois casos, tanto nos EUA como no Brasil, quando o pentecostalismo abraçou a
camada mais pobre, o fez naturalmente também, com o povo negro.
Nas várias
denominações do Brasil, a representação negra é marcante, com atividades
importantíssimas na formação de várias igrejas em diversos seguimentos
pentecostais.
Igreja
Congregação Cristã no Brasil
É
considerada seita por muitos por sua eclesiologia divergente das outras igrejas
evangélicas. Entre os pentecostais é considerada a mais fechada. A experiência
chamada “segunda bênção” – o batismo no Espírito Santo – foi a motivação do seu
início.
Luigi
Francescon saiu da Itália com 24 anos para Los Angeles em busca de um futuro
melhor. Em Chicago, o rumor de que o Espírito Santo batizava as pessoas como no
dia de Pentecostes – fenômeno que se espalhava por toda a América – alcançou
Francescon e sua esposa. As experiências com o Espírito Santo venceram suas
dúvidas e se desligou da igreja Presbiteriana que ajudou a fundar em 1892 na
Itália.
Francescon
chegou ao Brasil em março de 1910. Provocando uma grande divisão na igreja
Presbiteriana do Brás em são Paulo por apregoar suas ideias particulares sobre
o ministério e ações do Espírito Santo na vida do cristão. Criou então, a
primeira Congregação Crista no Brasil próximo à igreja Presbiteriana. Formada
no início de dissidentes das igrejas históricas discordantes da nova doutrina.
Para alcançar os italianos que chegavam em grandes grupos ao Brasil, os cultos
eram realizados no começo em italiano. Se a estratégia inicial era alcançar
especificamente italianos, o quadro atual é contraditório pelos negros atuais
que participam ativamente na denominação.
A
Congregação cristã no Brasil mantém uma linha separatista das outras
denominações evangélicas. Creem que para
se alcançar a salvação é preciso adentrar a seus quadros; os que não o fazem,
são apenas parte da criação e não predestinados para a salvação como os membros
da CCB. O evangelismo é estritamente pessoal, ou através dos cultos; os meios de
comunicação são ignorados. Não há ministros ordenados, a revelação da palavra é
dada na hora a qualquer um. Apesar da sua postura sectária, a CCB continua
crescendo e atingindo as comunidades carentes do Brasil.
Igreja
Assembleia de Deus
A
Assembleia de Deus além de ser o maior grupo pentecostal do Brasil é a igreja
que mais influenciou a religiosidade cristã no país. Seu início, porém contou
com a participação de igrejas históricas que realizaram transformações
doutrinárias entre si.
Os
acontecimentos ocorridos nas igrejas americanas fizeram com que muitos líderes
chegassem ali para os conferir. Daniel Berg e Gunnar Vingren eram dois suecos
que viajaram para os EUA acompanhando o êxodo europeu para a América. Ali,
também experimentaram o fenômeno do batismo no Espírito Santo; depois de
ouvirem uma profecia detalhada, resolveram migrar para o Brasil.
A data em
que Gunnar Vingren e Daniel Berg chegaram ao Brasil, 19 de novembro de 1910, é
considerada o início do pentecostalismo no país. Nessa época a igreja Católica
experimentava um grande declínio, os padres não eram atraídos para a região
Norte devido às condições precárias de acesso e de vida. As igrejas históricas
já haviam evangelizado quase todo o Brasil. Quando os fundadores da Assembleia
de Deus chegaram, sua mensagem resultou em muitas divisões. Tais conflitos
geraram também grandes avivamentos entre as igrejas históricas; aumentando o
fervor missionário. Exageros de ambas as partes provocaram mágoas e divisões.
Os pentecostais defendiam que as igrejas históricas deveriam vivenciar as
experiências do batismo no Espírito Santo para serem vistos como servos de
Deus. Do outro lado, os históricos não aceitavam nenhuma manifestação
espontânea de fé.
Na primeira
igreja que fundaram no Brasil em 18 de junho de 1911, Vingren e Berg mantiveram
o nome Missão evangélica Apostólica da Fé dado por Seymour; alterando-o para
Assembleia de Deus em 1918 acompanhando a mesma mudança ocorrida nos EUA em
1914.
A
Assembleia de Deus ostenta em quase cem anos 45 convenções, 22 mil ministros, e
quase 8,5 milhões de membros segundo a CGADB. Diante desses dados, o número
real de assembleianos talvez seja desconhecido. Sendo o maior grupo
pentecostal, a AD possui a maior parcela de negros que ali manifestam sua fé da
forma que mais se identificam.
Igreja
do Evangelho Quadrangular
Abalizada
em revelação recebida, Aimee Sample McPerson começou as atividades de um grupo
religioso que recebeu o nome de Igreja do Evangelho Quadrangular. À revelação
de quatro rostos, um de homem, um de leão, um de boi e um de águia, entendeu
ser símbolo dos pontos principais do ministério de Cristo. O Salvador, o que
batiza com o Espírito Santo, o que cura e o Rei que vai voltar. A mensagem
propagada pela Igreja do Evangelho Quadrangular em seu início acompanhava a
linha de revelação de sua fundadora. Em 1923, Los Angeles, foi construído um
templo que veio a ser sua sede mundial.
A inovação
de abrir igrejas sob tendas de lona foi trazida para o Brasil por Harold Williams
em 1951. O que marcou os membros da Igreja do Evangelho Quadrangular como
“tendeiros”. Williams organizou a Cruzada Nacional de Evangelização em 1953,
que deu início a um crescimento da IEQ em larga escala. Mas a primeira igreja
já havia sido fundada em 1951 em São João da Boa Vista com o nome de Igreja
Evangélica do Brasil. Mudando para seu nome atual somente sete anos depois.
Raymond
Boatright também semeou sua relevância no crescimento da IEQ no Brasil ao
enfatizar a cura divina em um contexto de sistemas de saúde e saneamento básico
deficientes, com altos graus de enfermidades. Tal ênfase contribuiu para 25 mil
membros já em 1964.
A Igreja do
Evangelho Quadrangular contribuiu grandemente para o pentecostalismo no Brasil
com líderes que alcançaram grande proeminência, como Manoel de Melo (Igreja
Pentecostal O Brasil Para Cristo), Roberto McAlister (Igreja de Nova Vida). Exerce
também grande influência no meio pentecostal porque tem uma característica
distinta de valorizar a figura da mulher. A IEQ mantém em suas lideranças
mulheres e negros e continua crescendo de forma observável; com 1,3 milhão de
membros no e vários ministérios em todo o Brasil.
Igreja
Pentecostal o Brasil para Cristo
A única genuinamente
brasileira entre as grandes igrejas pentecostais, a Igreja Pentecostal O Brasil
Para Cristo originou-se em evangélicos nativos. Também é a única a ostentar a
postura ecumênica, vista como avanço para o movimento pentecostal.
A Igreja
Pentecostal O Brasil Para Cristo foi fundada pelo pernambucano Manoel de Melo, com
formação na Assembleia de Deus, onde era evangelista e aprendeu métodos simples
de evangelização; passando pela Igreja do Evangelho Quadrangular, assimilou a
técnica de trabalhar com tendas, o que o possibilitou criar uma denominação
originalmente brasileira. Ser um homem simples e comunicador envolvente o ajudou
bastante na expansão de sua igreja. A IPBC cresceu de forma rápida tendo em
vista a identificação do povo com seu discurso popular e carregado de palavras
de consolo. A estratégia das tendas de lona somada a uma linguagem simples de
fácil assimilação o aproximou das pessoas. Foi reconhecido como um dos maiores
fenômenos da comunicação religiosa da década de 1950. Ainda hoje é possível
notar a influência de Manoel de Melo no estilo dos apresentadores dos cultos
pentecostais nas rádios.
Em uma
época em que as rádios perdiam espaço para a televisão recém-chegada ao Brasil,
mantendo, porém, a condição de meio de comunicação acessível às classes
populares, Manoel de Melo aproveitou o momento para a difusão de sua mensagem
através do rádio. Com seu jeito simples e modesto, viva de forma humilde e
pacata impressionando a todos.
A abertura
para outros grupos cristãos é notável na liderança de Manoel de Melo. A IPBC
foi a única participar do Conselho de igrejas. Constituindo posição antagônica
às outras igrejas pentecostais.
Continuando
em crescimento, a IPBC contém grande número de pastores negros com uma liturgia
bem brasileira e envolvente, fazendo jus ao seu nome. O ensino, porém, é tímido
e há certa distância entre o ardor evangelístico e da simplicidade adotadas
pelo seu fundador e das suas lideranças atuais.
Igreja
Pentecostal Deus É Amor
Tendo como
líder Manoel de Melo, Davi Martins Miranda – dissidente da Igreja Pentecostal O
Brasil Para Cristo – ao fundar em 1961 a Igreja pentecostal Deus É Amor, deu
início à ala mais radical do pentecostalismo brasileiro. Suas práticas
avizinham-se ascetismo exacerbado e regras de comportamentos quase bizarras.
Qualquer meio de diversão ou entretenimento com exceção do rádio (meio de
comunicação utilizado pela denominação), dizem ser motivados por demônios.
Davi
Miranda aproveitou também a fase difícil em que o rádio passava para propagar a
sua mensagem de cura divina e exorcismo. Com o estilo emprestado de Manoel
melo, penetrou primeiramente nos grupos sociais menos favorecidos.
É notável que
momento de maior expansão da Igreja Pentecostal Deus é Amor foi durante os anos
mais difíceis da história política do Brasil. Seu crescimento continua
acelerado entre as comunidades mais carentes; fiel ao estilo que marcou a
denominação em sua origem.
Os negros
nessa denominação, mesmo sendo minoria são expressivos.
A Igreja
Pentecostal Deus é Amor é foco de análise do pentecostalismo brasileiro do
ponto de vista da Sociologia, Psicologia, ou da Filosofia. Devido à sua postura
diante da cultura, outras religiões e da sociedade, constitui-se um enigma
ainda não solucionado.
II
– O Pentecostalismo Como Opção Para os Excluídos
O povo
brasileiro destaca-se por sua latente espiritualidade. De onde tira forças para
sobreviver ao abismo social existente e resistir no decorrer de sua história,
mantendo-se erguido em todas as suas peculiaridades.
A
Igreja Pentecostal: opção para os pobres
Tanto nas
igrejas históricas como no pentecostalismo não houve uma proposta de
direcionamento aos pobres. Mas as mensagens difundidas eram distintas. As
igrejas históricas visavam os seus, origem, cultura e etnia, as igrejas
pentecostais se dispunham a entregar sua mensagem sem distinção de raça, cor ou
credo.
O
pentecostalismo iniciou seu movimento enfatizando a ortodoxia bíblica como
regra de fé e prática. Premissa já pertencente às igrejas históricas como ponto
doutrinário. Os pentecostais se desligaram das igrejas históricas acusando-as
de não estarem de acordo com a Bíblia em relação ao batismo no Espírito Santo.
Como decorrência dessa questão, o pentecostalismo adentrou e influenciou várias
denominações causando divisões históricas.
O
pentecostalismo tornou-se opção para os pobres no período da ditadura (1964
-1982), pois a livre expressão existente na igreja pentecostal não incomodava
os militares por não haver ali nenhuma ideia, linguagem ou conceito subversivo.
Outro fator
que contribuiu pela opção dos pobres pelo pentecostalismo foi o grande êxodo do
interior para as capitais do Brasil, principalmente São Paulo e Rio de Janeiro.
Essas pessoas ouviam no rádio, o meio de comunicação mais popular, a linguagem
simples e quase rude que os atraíam em busca das curas e soluções prometidas
nos programas. Nas igrejas, encontravam um ambiente acolhedor, assim,
continuavam retornando até o batismo.
O êxodo
rural trouxe grandes massas para as cidades, ocorrendo a expansão da pobreza e
da miséria; as favelas, refúgio dos negros desde a abolição, viu sua população
aumentar com grande parte da população urbana empobrecida. Tais pessoas se
sentiam atraídas por uma mensagem de em uma vida melhor, ouvidas em praças,
trens ou ônibus.
O Pentecostalismo
apareceu trazendo a novidade que a opção de mudar a situação de dificuldade da
vida estava em cada um, bastando crer no que estava escrito na Bíblia.
A situação
de exclusão gera dor, vergonha e sentimento de inferioridade, porém, produz
solidariedade. Prática observada entre os mais pobres. Se a competição fala
mais alto entre os abastados, a divisão do pouco prevalece entre os menos
favorecidos. Os pobres se veem uns nos outros.
A igreja
pentecostal aproveitou essa solidariedade na prática das organizações, com um
discurso de diminuição de distância entre líderes e liderados. Agora, os
rejeitados podiam realizar a obra de Deus na Terra, para quem não tinha nenhuma
expectativa de ascensão social, ser objeto de ação do Espírito Santo de Deus,
produzia uma sensação de valorização e poder. A contemporaneidade dos dons
devolvia aos pobres um sentimento de posse, pois bastava algum esforço cultural
e social para ser cheio de poder.
A melhor
adequação pelos pobres pela mensagem das igrejas pentecostais em detrimento das
históricas, deveu-se à linguagem, ao êxodo rural, o aumento da pobreza e o
incentivo à utilização dos dons espirituais.
A
igreja pentecostal como opção para os negros
A igreja
histórica se distanciou da população negra após o Pentecostalismo. Não houve do
Pentecostalismo, uma atitude declarada de voltar-se para os pobres e negros,
mas no Brasil, os negros optaram pelo Pentecostalismo.
As
características dos negros influenciaram em sua preferência pelo
Pentecostalismo. Sua religiosidade manteve-os unidos pelo longo período de
atrocidades da escravidão. Seguido pelo desprezo pelos negros e pobres herdados
pelas classes dominantes dos antigos senhores de escravos.
A despeito
de todo o sofrimento, os negros mantiveram sua religiosidade que tende a ser
mais participativa. Veem no sofrimento passado força para resistir
coletivamente, não bastando apenas uma teologia abstrata, mas veem Deus
expressar-se em tudo em sua vida.
A liturgia
pentecostal agrada a grande maioria dos negros que o adotam por aproximá-los de
suas origens; ao contrário da liturgia das igrejas históricas que tendem a
seguem os europeus. A história de exclusão social dos negros principalmente
depois da abolição e a linha de aproximação das igrejas pentecostais em direção
aos excluídos, foi outro ponto de atração dos negros ao Pentecostalismo.
A espontaneidade
e alegria do povo negro também o aproximou do Pentecostalismo por encontrar ali
uma forma de cultuar mais despojada, mais solta, sem a rigidez de regras e
métodos.
A força dos
limites impostos aos membros das igrejas pentecostais com o “mundo”, em
contraste com as religiões africanas – com sua liberdade extremada – também foi
um fator que atraiu os negros.
Dessa forma
os negros entenderam que a igreja pentecostal os faria sentir-se aceitos e
úteis em um grupo social maior.
III
– As Barreiras das Igrejas Históricas
É preciso
observar as causas que levaram um número três vezes maior de negros a optarem
pelas igrejas pentecostais em relação às históricas. As igrejas históricas são
assim chamadas por abalizarem suas doutrinas na Reforma Protestante do século
XVII. São fundamentadas na Bíblia, são estruturadas administrativamente e são
mais abertas em pontos de vista relativos a comportamento, vestes, artes e cultura,
o que poderia atrair os negros, porém, não é o que acontece. Quais os fatores
que os afastam? Posturas perpetuadas? Ou falta algo que os garanta em seus
quadros?
Opção
pela elite
Robert Reid
Kalley (1809 – 1888), missionário escocês, ao batizar o primeiro brasileiro,
Pedro Nolasco de Andrade, suscitou enorme agitação entre a classe mais
abastada, como em toda a sociedade brasileira por Nolasco ser um homem
influente. Kalley precisou se aproximar dos grandes juristas e do imperador
como resultado da perseguição que aumentou.
A presença
de Kalley teve relevância na chegada de outros missionários de outras
denominações tendo em vista que Kalley não pretendia seguir as linhas europeias
e norte americana e formar uma igreja brasileira. Porém, seu direcionamento foi
para a elite brasileira, o que orientou os missionários que chegaram depois,
apartando-se das camadas excluídas. Havia também a rigidez das leis brasileiras
que dificultavam a entrada no país de qualquer outro seguimento diferente do
catolicismo romano.
Muitos
missionários chegados ao Brasil não encontravam questionamentos em relação ao
contraste entre a pregação do evangelho e a escravidão e pareciam não se
incomodar com o fato.
Assim, as
igrejas históricas permaneceram direcionadas para as classes mais favorecidas.
Atualmente, seus membros são formados pela classe média, existindo espaço para
os excluídos ascenderem. O Pentecostalismo ao contrário, insiste no foco dos
menos favorecidos; assim, os pentecostais continuam sendo chamados os pobres
dos pobres do Brasil.
Dificuldade
com a linguagem
Quando o
jovem missionário presbiteriano Ashbel Green Simonton chegou ao Brasil em 12 de
outubro de 1859, aos 22 anos, já encontrou certa facilidade para trabalhar,
pois Kalley já havia recebido autorização para suas atividades. Ajudando assim,
missionários de outras denominações históricas. Mas Simonton não sabia falar
português e no início de seu trabalho precisou se limitar a pregar aos
ingleses, mesmo assim enfrentou muitas dificuldades na realização dos cultos.
O amigo e
cunhado de Simonton e contemporâneo do seminário Western Teological, Alexander
Blackford, o ajudou até o dia em que discordaram sobre a localidade da primeira
igreja Presbiteriana no Brasil. Simonton escolheu o Rio de Janeiro e Blackford
foi para São Paulo. As duas igrejas foram fundadas; no Rio de Janeiro oficialmente
em 15 de maio de 1863 e em São Paulo em 5 de março de 1865.
Outro
missionário a fornecer grande ajuda a Simonton foi o reverendo Francis Joseph
Schneider, que trabalhou voltado aos seus conterrâneos. O fato de os
missionários presbiterianos não falarem o português dificultou muito a chegada
de sua mensagem aos brasileiros.
Nota-se
ainda hoje algum entrave nas igrejas históricas em atingir a população negra,
mesmo havendo em sua membresia um percentual respeitável de negros; porém
quando comparada com as igrejas pentecostais, a disparidade é enorme. A
linguagem falada nas igrejas históricas é para alcançar mais as classes média e
alta e não os excluídos e pobres da sociedade. Falta, portanto, uma linguagem
mais próxima da realidade e contendo paixão pelo que é anunciado.
Estratégia
missionária
Os
primeiros missionários protestantes vislumbraram uma transformação a longo
prazo no Brasil. Que estruturasse o protestantismo como opção ao pensamento
retrógado do catolicismo romano. Esta visão era corroborada por nomes de
influência notáveis como Rui Barbosa.
As igrejas
históricas contribuíram notavelmente com a educação na sociedade brasileira. Porém
este mesmo ponto serviu para afastar os mais pobres e os negros, pois era
preciso saber ler e escrever para ser protestante. Nas igrejas pentecostais
também ocorreu este incentivo ao estudo, pois a doutrina do batismo no Espírito
Santo estava abalizada na Bíblia, sua única fonte de sustentação. Porém, os que
não sabiam ler e escrever, através dessa experiência eram legitimados a liderar
como homens e mulheres de Deus.
Liturgia
distante dos negros
A liturgia
das igrejas históricas se firmou como mais uma barreira para que os negros
adentrassem às suas fileiras. Por valorizarem excessivamente a influência
europeia em suas músicas e reprimirem com expulsão os líderes que se
aventuraram a experimentar uma liturgia mais alegre, virando assim, as costas
para a cultura negra do Brasil.
As igrejas
pentecostais ao contrário, entenderam essa liturgia mais despojada, solta e
alegre como atuação do Espírito Santo.
IV
– Os Negros e a Igreja Pentecostal
Dois
fatores se destacam no relacionamento entre a população negra no Brasil e o
Pentecostalismo.
No período
da escravidão os negros se viram obrigados a omitir-se religiosamente e
forçosamente aceitar a religião oferecida por seus senhores.
Ainda hoje
os negros se ressentem de seu passado odioso e o veem validados nas exclusões
sofridas, nos olhares carregados de preconceito, no racismo legitimado. Veem o
recismo como velado para aqueles que não o aceitam. Entendem que a escravidão continua
assim, invalidando o homem negro e o tachando como ser inferior e que sempre
será o último. Tais atitudes seriam, portanto, pecado diante de Deus.
No negro,
há o sentimento latente a todo o homem, de ir e vir sem ser maltratado; se
expressar livremente e ter o direito de ser feliz.
Entendem
ser racismo institucional as definições de cor da pele nos censos oficiais e
que a população negra do Brasil é vítima de uma estrutura que privilegia sua
exclusão sumária.
O IDH
(Índice de Desenvolvimento Humano) dos negros brasileiros fica abaixo do IDH
dos brancos em todas as simulações, resultado do período em que o Brasil evitou
políticas de integração social dos descendentes de escravos.
Liturgia pentecostal: reminiscências
O modo de
cultuar das igrejas pentecostais e históricas difere bastante. Enquanto as
igrejas históricas cultuam fundamentando-se em preceitos e dogmas da Teologia
reformada europeia, o Pentecostalismo atraiu os negros no Brasil por apresentar
uma liturgia contendo traços de expressões que se coadunam com a realidade dos
negros. A religiosidade negra é mais expressiva e não restrita a dogmas. Os
negros utilizam o corpo para se expressar no decorrer do culto, com danças,
abrindo os braços, batendo palmas etc.
A
musicalidade dos negros expressa seus momentos passados, sua dor e sofrimento,
principalmente na escravidão brasileira. A música cantada nesse tempo
expressava sua resistência. Essa musicalidade, ponto forte de sua
religiosidade, contém espiritualidade, sensualidade e traduzem esperança,
revolta, liberdade, amor, tristeza ou sofrimento. No Pentecostalismo, essa
diversidade tornou-se ponto fundamental e estratégico para alcançar os negros
aos seus arraiais.
A força dos
antepassados negros, embora erradamente vista como idolatria, traduz-se como
inspiração para resistência da mesma forma como os heróis bíblicos do Antigo
Testamento são reverenciados.
As
reminiscências são, portanto, a utilização do corpo, a musicalidade e a
lembrança dos antepassados. Cristo continua sendo o principal ponto sobre o
qual a graça de Deus se manifesta.
O
Pentecostalismo apresentou uma liturgia mais despojada, mas o que atraiu os
negros foram as reminiscências, o que “pulsa na veia” mesmo que eles não
saibam.
V
– Fundamentalismo, Pentecostalismo e os Negros no Brasil
O que é o
fundamentalismo, como se entranhou no Pentecostalismo, seus resultados,
relevância e se foi mais um fator de atração para os negros.
O fundamentalismo: alicerce para o
Pentecostalismo brasileiro
Um dos
pontos mais destacados no protestantismo brasileiro é o fundamentalismo. Tanto
o influenciou no crescimento quanto na omissão social e política das igrejas
evangélicas brasileiras.
O
fundamentalismo que influenciou o protestantismo brasileiro surgiu próximo à
década de 1910 quando foram apresentados os pontos básicos desse movimento
através de folhetos chamados “os fundamentos” escritos por vários autores e que
foram enfatizados pelos pentecostais e por muitos membros das igrejas
históricas.
Os
conceitos contidos apresentavam os pressupostos fundamentais do cristianismo,
diferenciando-se, porém, os fundamentalistas dos que não o são simplesmente
pela forma como os interpretam. Não sendo aceito pelos fundamentalistas, nenhum
ponto de vista diferente do seu.
Os
fundamentalistas cometem o erro da visão literal da Bíblia ao interpretar suas
premissas. Qualquer ponto discordante do fundamentalismo é rotulado como
heresia pela igreja pentecostal e resulta na busca dos dogmas em que se
aprofundaram para sua proteção.
Tendo o
evangelismo como prioridade nas décadas de 1960 e 1970, as denominações
pentecostais mostraram um grande crescimento sem demonstrar postura relevante
em relação às violências cometidas pelo regime militar. A visão do comunismo
como ameaça às igrejas,
respaldava a omissão traduzida como apoio à perseguição política a este grupo e
influenciou um preconceito que persiste em se manter.
Pressupõe-se
que ser pentecostal significa ser fechado para a reflexão e questionamentos,
pois isso afasta o homem de Deus.
A proposta de santidade dos pentecostais
O
fundamentalismo influenciou nas igrejas pentecostais uma prática de santidade
bem próxima do ascetismo; no significado mais aceito e defendido entre a
maioria dos evangélicos, ser santo é ser “separado” do mundo. Dependendo da
igreja essa separação resume-se a obedecer a um conjunto de regras impostas por
líderes que pessoalmente, não vivenciam conceitos éticos.
A
apresentação de ensinamentos recriados pelos líderes pentecostais alimenta a
mente de pessoas que carregam o peso de não se perdoar ou uma pretensa sede de
poder, ao invés de experimentar o evangelho da graça de Deus. A pressão
exercida com uma santidade que castra e aliena resume o povo à massa de manobra
de muitos líderes, causando sérios conflitos sobre as pessoas, tornando-as
material de análise psicológica da igreja pentecostal.
O tabu
envolvendo assuntos sobre sexo na igreja pentecostal acentua situações
problemáticas envolvendo muitas pessoas vivendo grandes dilemas nessa área e
agravados pela falta de diálogo. Esse assunto é observado em toda a igreja
evangélica do Brasil.
Ser santo,
consagrado e ou abençoado nas igrejas pentecostais, envolve situações de
dedicação e obediência sem questionamentos – mesmo se as situações envolvidas
estão em desacordo com a Bíblia – e posses de bens materiais, que só estão ao
alcance de pessoas consagradas. Vivendo em grande crescimento, as igrejas
pentecostais têm distorcido o conceito bíblico do que é ser santo. A santidade
vivida de acordo com a Bíblia acentua o amor ao próximo, não como imposição,
mas como resultado da transformação realizada pelo amor de Deus em nós.
VI
– O Lado Escuro da União: negros e Pentecostais
A reflexão
dos pentecostais com os negros inseridos nesse grupo parece ser dolorosa. Os
negros parecem sofrer em sua maioria, como decorrência do período escravista do
Brasil, um complexo de inferioridade que os impõe muito sofrimento. Pesa-lhes
também conceitos teológicos errôneos, como a maldição de Caim ou a união de
negros e brancos ser tachada de jugo desigual. Outra forma de aflorar o
complexo de inferioridade entre os negros é o chamado branqueamento, onde os
negros procuram casar-se com pessoas brancas para ascender socialmente. Essa
prática teria sido motivada pela elite brasileira entre o final do século XIX e
início do século XX, com o objetivo de extinguir o seguimento negro da
sociedade brasileira. É observado também que a liderança máxima na igreja
pentecostal é vedada aos negros cabendo-lhes somente posições subalternas
apesar de sua grande atuação em seu meio.
Os negros pentecostais: grande massa de
manobra política
Pelo seu
crescimento notável, a igreja evangélica conquistou uma posição reconhecida e
não passa despercebida principalmente em anos eleitorais. Porém, depois do
golpe de 1964, os líderes evangélicos fecharam-se em uma posição omissa e
“apolítica”, sem, contudo, deixarem de tirar proveito em suas finalidades
institucionais. Dando uma guinada em seu posicionamento nos últimos anos, com
os líderes exercendo grande influência nos votos de seus membros e usando de
coerção. Resultado de uma esfera de coronelismo no Pentecostalismo. Sua postura
agora é política. Os negros, por serem grande número entre os pentecostais,
acabam participando como parte dessa massa de manobra.
O mito da democracia racial entre os
pentecostais
Existe
motivo de orgulho na igreja evangélica brasileira pelo conceito de “democracia
racial”, porém, esse pensamento esconde a ideia de racismo presente em seu
meio.
A
democracia racial demonstra ser um mito quando observada a pouca representação
dos negros nas pesquisas com renda e situação econômica. Nas igrejas
pentecostais, onde os negros mais têm espaço, é justamente onde mais se reforça
o mito da democracia racial e onde mais são demonizados cultos afros.
Não
deveriam se assustar também com as discussões acerca do racismo e da
necessidade de abrir espaço em sua liderança para os negros participarem mais
efetivamente.
Tentam
assim, evitar possíveis divisões em seu meio.
Mais perto de Deus quanto mais distante da
origem
O Brasil é
homogêneo em suas várias cores, sem identidade racial definida. Ao
afrodescendente de biótipo negro cabe o resgate de suas origens que por muito
tempo foram esquecidas pelas elites. Declarar-se como descendente de qualquer
outra origem que não a negra, pode ser positivo, mas declarar-se negro atrai
preconceito e negação. A valorização de ser negro é um grande passo para a
igualdade racial.
Uma atitude
persistente na igreja evangélica brasileira é o preconceito acerca de tudo com
origem africana. Se expressando com a prática de demonizar qualquer influência
cultural africana. Substituindo-os por elementos vindos de outros lugares que
não a África. Isso pode ser confirmado nos hinários predominantemente com
músicas europeias. Com contextos distintos aos dos brasileiros. Apesar das
igrejas pentecostais usufruírem dos ritmos africanos vindos dos EUA, demonizam
os ritmos brasileiros de origem afro.
O princípio
vigente é que essa origem precisa ser ignorada para não gerar divisões,
perpetuando preconceitos e mantendo os negros em posições de animação dos
cultos, mas não em posições de relevância em que mudariam a situação atual.
Essas mesmas igrejas que enfatizam uma guerra espiritual contra religiões
africanas, ignoram ações demoníacas em outras esferas da sociedade brasileira e
até mesmo dentro das igrejas evangélicas. E se negam a crer que demônios agem
para destruir vidas tanto na África como em qualquer outro lugar.
VII
– Pentecostais: Maioria Negra?
Os negros
religiosos, em sua maioria optaram pela igreja pentecostal, porém, se fazem
representar significativamente entre as religiões africanas.
O mito do Candomblé
Ainda se
pensa no Brasil que é incoerente negros escolherem outra religião que não as de
origem afro. Ainda há grande parcela de negros participando das religiões
africanas, mas já se comprova que não são maioria. O Candomblé e a Umbanda
perderam, fiéis e se distanciaram da população afrodescendente.
Os negros
não são mais atraídos pelas religiões africanas porque estas se afastaram das
classes mais pobres da população, através dos preços mais elevados das
oferendas, pelo distanciamento entre os adeptos. Ao contrário da igreja
pentecostal que tem a evangelização como prática, as religiões africanas, não
possuem estratégias de crescimento. A vontade do indivíduo prevalece, inclusive
em questões éticas.
Os negros são pentecostais?
Não se pode
afirmar que os negros religiosos do Brasil são pentecostais, mas é notável que
na maioria das outras religiões, o número de pessoas brancas é bem maior que o
de pessoas negras; na igreja pentecostal do Brasil, há um empate técnico entre
brancos e negros.
VIII
– Uma Constatação que Exige Ação Urgente
A conclusão
de que a maioria de negros religiosos está na igreja pentecostal, mostra uma
realidade que induz a responsabilidades da igreja com essa parcela de seus
membros, que pode influenciar em uma nova postura no Brasil em relação às
diferenças entre negros e brancos, começando a tratar as diferenças existentes
em suas próprias estruturas. Assim como já foi dada uma grande contribuição das
igrejas evangélicas na educação do Brasil.
A
contribuição da igreja evangélica para os negros do Brasil
Pesquisadores
de diversas áreas têm sido atraídos pelo crescimento experimentado pela igreja
evangélica brasileira. Cabe à igreja perceber o quanto pode contribuir pela
inclusão dos negros com sugestões e ações objetivas. Começando a repensar a sua
educação repleta de preconceitos e racismos, valorizando a figura do negro e
mostrando-os como protagonistas bíblicos. Não ignorando seu histórico de lutas
no passado recente do Brasil.
Quando os
líderes ensinarem acerca do racismo como pecado, a igreja será um lugar de
atração para muitos outros negros.
As políticas de ações afirmativas e as
igrejas evangélicas
Durante
essas discussões, a igreja não se mostrou interessada pelo assunto. Porém, é
preciso entender que os valores do Reino de Deus passam por posicionar-se em
busca de um futuro de igualdade real entre as pessoas.
É preciso
definir primeiro o que são as políticas de ações afirmativas, que visam
diminuir as diferenças sociais de uma sociedade. Tais medidas tem ganhado
espaço no Brasil bem como as opiniões contrárias, que buscam base na
Constituição do Brasil com argumentos isonômicos. Porém, são necessárias para
dar aos negros possibilidades melhores e verem derrubadas desigualdades
pautadas pela raça.
A igreja
evangélica do Brasil mostrou-se omissa através de sua história em relação a
questões sociais e raciais. A continuada omissão também às políticas de ações
afirmativas a direciona à posição universalista. A falta de discurso no meio
evangélico perpetua seu papel de distanciamento nos processos de transformação
do Brasil.
A
conscientização seria o primeiro passo em direção ao envolvimento da igreja na
política de ações afirmativas, pois a igreja evangélica tem demonstrado estar mal-informada
sobre o assunto. A quebra do preconceito se dará no esclarecimento dos membros
sobre as discrepâncias sociais.
Uma atitude
para diminuir as diferenças, seria a atuação dos empresários presentes nas
igrejas que poderiam dar oportunidades aos negros em suas empresas; as igrejas poderiam
em suas instituições teológicas, abrir espaço entre o corpo docente,
viabilizando bolsas de mestrado que geralmente estão acima de seu poder
aquisitivo.
A dimensão transcendente da igreja
A igreja
tem a capacidade de transcender ao caos e causar transformação no Brasil.
Graças ao sacrifício perfeito efetuado por Cristo, através da oração, a igreja
age em favor dos que sofrem sem saber por quê.
Há um
movimento na igreja brasileira somente na área espiritual em detrimento da
prática do dia a dia, em relação à violência e injustiças sociais e nega a ver
os erros existentes na própria igreja.
A igreja
precisa abdicar da posição de manter o status quo e ao mesmo tempo ser alienada
dos sofrimentos alheios. Através da oração e prática, precisa se voltar para os
excluídos e clamar ao Senhor por milagres ao encontro dos que sofrem as
injustiças resultantes das ações que privilegiam as elites.
Quando a
igreja agir pelos pobres, estará fazendo também pelos negros. O resultado da
oração é o engajamento. Foi o que ocorreu nos EUA quando os negros avaliaram o
que ocorria; o resultado de suas ações foi uma das maiores transformações
sociais que a humanidade já presenciou.
Conclusão
Crítica
A obra
cumpre seu objetivo quando inspira a reflexão sobre um tema geralmente evitado.
Tarefa irrealizável se desacompanhada da polêmica; companheira inseparável dos
assuntos que envolvem emoções, sofrimentos e injustiças observados e vividos
sob ângulos distintos.
Dos arrazoados
em oposição, evidencia-se a inclinação do autor a pontos da Teologia Negra,
onde “...a experiência da opressão negra se sobrepõe à norma final; acompanhada
de um etnocentrismo radicalmente oposto à mensagem libertadora do evangelho de
Cristo”[1].
O fato de o
Brasil ser um país homogêneo, sem identidade racial definida; é confirmado pelo
autor. Portanto, a teoria do “embranquecimento”, como meio de ascensão social,
se levada a efeito no passado, não parece ter o mesmo objetivo hoje; ao
contrário, seria forçoso reconhecer a predominância da parcela negra da
população sobre a branca. Obviamente que negros(a) e brancos(a) escolhem livre
e individualmente seus(a) parceiros(a) porque se agradam da grande diversidade
étnica de nosso povo.
É
equivocada a reclamação da falta de lideranças negras na esfera mais elevada
das igrejas pentecostais onde está sua maior representação, fato observado na
grande liderança do apóstolo Valdemiro Santiago, líder da igreja Mundial do
Poder de Deus. Um homem negro, que acreditou em sua visão, em seu potencial e
não se prendeu a estigmas do passado.
É expresso
“um anseio de liberdade pelo homem negro, contra uma escravidão que o diminui a
uma esfera de ser inferior fazendo-lhe sentir-se que será sempre o último”.
Estes sentimentos são comuns a todos os homens e mulheres impostos a políticas
sociais injustas, abusos dos poderes político e econômico e de um capitalismo raivoso.
Não se resume simplesmente à cor da pele.
É estranha
a questão levantada de uma possível “inferioridade coletiva” entre os negros,
depois de serem apresentadas com justiça suas qualidades de um povo heroico,
resistente, alegre e contagiante. Seria incoerente esse tratamento, dirigido somente
a determinado grupo de uma sociedade tida como a que mais avançou na mistura
étnica, usando critérios como declaração e aparência; quando os mesmos
critérios são usados em censos oficiais, são encarados como racismo.
Independente
da etnia ou do passado de qualquer indivíduo, quando ocorre uma conversão
genuína e Deus ocupa o primeiro lugar em sua vida, quando existe a vontade e o
esforço individual; não há homem, estigma, política, preconceito ou barreira
que o impeça de alcançar seus objetivos e ser um vitorioso e referência para
outros.
[1] SAWYER, M. James. Uma
Introdução à Teologia: das questões preliminares, da vocação e do labor
teológico, trad. Estevan F. Kirschner. São Paulo. Editora Vida, 2009. Pg. 514.

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